Marion Nestle, professora emérita da Faculdade de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova York, e professora visitante no curso de Ciências Nutricionais da Universidade de Cornell. Uma Verdade Indigesta: Como a Indústria Manipula a Ciência do que Comemos. Editora Elefante, 1ª edição, 2019. Capítulo 4: "Venda de carne e laticínios"
A carne hoje contém resíduos de antibióticos e hormônios usados para promover o crescimento animal. É processada com sais potencialmente cancerígenos e outros produtos químicos. O método de produção causa danos ambientais. A gordura, especialmente a saturada, é uma preocupação. O Guia Alimentar dos Estados Unidos sugere não mais que 1.020 gramas de carne por semana, ou 145 gramas por dia. Muitos defensores das dietas vegetarianas vão além: acreditam que a carne e, às vezes, os laticínios são tão ruins para a saúde, o ambiente e os animais que ninguém deveria comê-los.136
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A ideia de que a carne vermelha está ligada ao risco de câncer surgiu logo depois da Segunda Guerra Mundial, quando o médico Denis Burkitt (famoso por descrever o câncer hoje conhecido como linfoma de Burkitt) observou que as pessoas que consumiam muita carne — dietas ocidentais — apresentavam mais câncer de cólon e reto. O tabagismo e a obesidade são fatores de risco bem estabelecidos para certos tipos de câncer. Estudos populacionais sugerem que a carne também o é. As pessoas que consomem muita carne têm um risco cerca de 20% maior de câncer de cólon e reto, e risco aumentado de câncer de esôfago, fígado, pulmão e pâncreas.138
As razões dessa associação não são totalmente compreendidas. Os cientistas suspeitam que certos componentes da carne naturalmente presentes ou criados durante o cozimento ou o processamento — sais, ferro, nitratos ou nitritos — podem ser carcinogênicos. Com base nisso, a OMS classifica a carne vermelha como “provavelmente carcinogênica para humanos” e as carnes processadas como inequivocamente “carcinogênicas para humanos”.139 Essas constatações, diz a organização, norteiam as recomendações de saúde pública para limitar o consumo do produto.
Referências
- 136 Pew Commission on Industrial Farm Animal Production. Putting Meat on the Table: Industrial Farm Animal Production in America, 2008; GREGER, M.; STONE, G. How Not to Die: Discover the Foods Scientifically Proven to Prevent and Reverse Disease. Nova York: Flatiron Books, 2015.
- 138 BURKITT, D. P. Epidemiology of cancer of the colum and rectum. "Cancer", 1971, v. 28, n. 1, pp. 3-13; CROSS, A. J.; LEITZMANN, M. F.; GAIL, M. H. et al. A prospective study of red and processed meat intake in relation to cancer risk. "PLOS Med.", 2007, v. 4, n. 12, e325.
- 139 GENKINGER, J. M.; KOUSHIK, A. Meat consumption and cancer risk. "PLOS Med.", 2007, v. 4, n. 12, e345; International Agency for Research on Cancer. LARC monographs evaluate consumption of red meat and processed meat, material de divulgação à imprensa n. 240, 26 out. 2015.